Entrevista: Márcio Funghi de Salles Barbosa

O psiquiatra Márcio Funghi de Salles Barbosa fala sobre a Depressão e nos mostra como identificar seus sintomas.

P: Qual o papel do estresse sobre a depressão?

Barbosa: Nas depressões adquiridas o estresse é o fator desencadeante e dependendo da sua intensidade e dos fatores do indivíduo, poderemos ter depressão aguda (súbita) ou crônica (de longa formação). Na depressão aguda o fato estressante aniquila o indivíduo e este cai em profunda prostração, podendo chegar ao suicídio, se não lhe dermos provas rápidas de que existe solução para seu problema.

P: Na depressão crônica, o estresse é mais brando?

Barbosa: Nem sempre. Muitas vezes, a um estresse intenso, pode surgir um quadro depressivo de longa duração, um pouco mais brando que no momento inicial, mas de forma também destruidora. Na maioria das vezes a depressão crônica é precedida de uma série de acontecimentos que geram estresses e depois de algum tempo, cria-se um estado de preocupação com o que está para acontecer, chamado de Distress, que é o Distúrbio do Estresse. Aos poucos ele gera uma deficiência de substâncias químicas no sistema nervoso, levando o indivíduo à depressão.

P: Existe também depressão orgânica?

Barbosa: Existem “depressões orgânicas”, isto é, causadas por distúrbios orgânicos, como a epilepsia, a esquizofrenia, a AIDS, a arteriosclerose, o câncer e tantas outras doenças. Existe inclusive uma Depressão Maior, que é genética, causada por múltiplas deficiências do Sistema Nervoso, que quando alterna com um comportamento agitado, euforizante, é chamado de Transtorno.
Bipolar.

P: É possível haver cura da depressão sem tratamento?

Barbosa: É possível e ocorre mais em pacientes com depressão que surge como reação a problemas físicos, situacionais ou em momentos de extrema tristeza. Entretanto, é bom saber que, mesmo na Depressão Maior, a primeira crise costuma ceder com medicamento errado ou insuficiente, ou ainda sem medicamento nenhum, mas poderá voltar em novos surtos, muitas vezes mais intensos que o primeiro.

P: Psicoterapia ou medicação, qual o melhor tratamento?

Barbosa: Certa vez um clínico me ligou, para me pedir que eu desse uma bronca em uma nossa paciente, que havia ido a um “curador”, para tentar se curar da depressão. Acalmei-o e quando ela chegou, com medo da bronca, eu perguntei se tinha dado alguma ajuda. Ao dizer que não, eu respondi: ”Que pena!” Coitado de quem se julga capaz de usar um só recurso, para todos os clientes. Vão perder muitos…

P: Que tipos de problemas costumam ser observados no tratamento medicamentoso da depressão?

Barbosa: Os problemas observados costumam ser passageiros e se referem à adaptação medicamentosa, sendo os mais comuns, ligeira atordoação, sonolência leve e queixas gastro-intestinais, como náuseas leves, formação de gases com abdome distendido e por mais freqüentemente, prisão de ventre. Ao se receitar um antidepressivo observamos os efeitos colaterais e se não forem atenuados ao nível da boa tolerância, devemos procurar outros compostos.

Como a maior incidência é de problemas digestivos, junto com os medicamentos nós estamos instituindo farta dieta líquida, frutas com aveia e mel, verduras, fibras e estamos contentes com os resultados obtidos com a inserção de lactobacilos no dia a dia dos nossos pacientes. Eles agem impedindo a agressão mais severa dos medicamentos e temos visto casos de correção imediata das constipações intestinais, levando ainda em conta, que os intestinos com uma flora normal resistente a agressões, propiciam uma melhor absorção medicamentosa, com redução de doses e de sintomas colaterais.

Contudo, o médico deve avaliar os riscos/benefícios do uso de um determinado antidepressivo, pois muitas vezes a medicação, embora satisfatória no combate à depressão, pode gerar um estado de ansiedade/irritabilidade, se produz reações sérias, como não evacuar, ou não ter uma boa digestão.

P: Lendo o quadro abaixo, vimos que existe uma distinção de sintomas físicos, psíquicos e afetivos. Os compartimentos são separados?

Barbosa: De forma alguma! Sintomas físicos podem surgir como resposta a descontroles afetivos, que por sua vez podem surgir por alterações físicas ou psicológicas. Os estudos sobre a química cerebral mostram cada vez mais a inter-relação entre o físico, respondendo ao psíquico. Chamo a atenção para algumas das observações existentes no quadro a seguir. Elas mostram exatamente isto.

P: Quando saber se há a depressão, uma vez que muitas pessoas têm ocasionalmente alguns destes sintomas?

Barbosa: A certeza de que existe um processo de depressão, surge quando existem simultaneamente dez sintomas entre os mais frequentes, por um período de dois meses seguidos ou mais.

P: Por que vemos alguns médicos afirmando aos pacientes, que a Depressão é falta de força, caráter ou de auto-esforço?

Barbosa: Também entre os médicos existem deprimidos que querem crer nesta bobagem. Quem pensa assim, médico ou não, é desinformado.

P: É possível perceber pessoas que não são deprimidas, mas que exibem estes sintomas?

Barbosa: Com muita frequência! Principalmente entre os portadores de outras doenças, entre os fanáticos por dietas, entre os compulsivos, como os jogadores, trabalhadores, bebedores, drogaditos e uma enorme gama de problemas psíquicos, físicos, situacionais. A própria definição de saúde diz que “Saúde é (utopicamente) o perfeito equilíbrio entre o bem estar físico, psíquico e social”. No mundo de hoje com os políticos e poderosos se desintegrando, num processo utópico de compensação da própria inferioridade, com destruição da “res-pública”, será possível que existam sadios entre a população comum? O pior é que concluímos a cada dia, que o processo atual é quase inevitável, para a queda que antecede ao próximo crescimento social. Sempre foi assim, ao longo da história.

 

CONHEÇA UM POUCO MAIS SOBRE A DEPRESSÃO:

O primeiro passo para falar sobre depressão é ressaltar que ninguém tem culpa de ter depressão. Assim como ninguém tem culpa de ter diabetes ou miopia. Mas o fato de não ser culpado não quer dizer que não temos que cuidar dela.

Diversas vezes eu ouvi as pessoas dizerem que a cura para depressão é “um tanque cheio de roupas sujas para lavar”. Por mais que seja uma brincadeira reflete bem a idéia de algumas pessoas, que é falta de vontade, preguiça, falta do que fazer, etc. Muitas pessoas não procuram tratamento adequado por vergonha, por considerar uma fraqueza ou mesmo por receio de “viciar” nos antidepressivos.

A primeira boa notícia é que a depressão pode e deve ser tratada.

A segunda é que os antidepressivos não viciam, como se diz popularmente. No entanto, eles devem ser tomados somente sob prescrição médica, que irá orientar sobre o medicamento ideal, doses, possíveis mudanças e o momento oportuno para parar.

A depressão é uma doença que afeta a pessoa de uma forma global.

Sentir-se triste, “na fossa” e desanimado por um período crítico em nossa vida é muito natural. Mas sentir-se assim por longos períodos, intensamente e/ou constantemente pode ser um sinal de que esteja precisando se cuidar.

A depressão é causada por uma combinação desses fatores:

O Fator genético: acredita-se atualmente que existe uma hereditariedade na causa da depressão. Isso quer dizer que você pode ser mais vulnerável a ter depressão se tem parentes próximos que já tiveram. Mas não existe regra fixa para isso. Uma pessoa pode não apresentar nenhum sintoma mesmo tendo parentes próximos com depressão assim como outra pode ter depressão mesmo que ninguém na família tenha tido.

o Fator biológico: existe um desequilíbrio de substâncias químicas existentes no cérebro.

o Fator Psicológico: auto-estima baixa, desvalorização pessoal e dificuldade em lidar com fatores estressantes, etc.

Situações externas adversas, uso abusivo de álcool ou drogas, alguns medicamentos e outras doenças não-psiquiátricas também podem desencadear a depressão.

Seus principais sintomas são:
Perda ou diminuição de prazer;
Alteração no sono; (aumento ou diminuição)
Alteração no apetite; (aumento ou diminuição)
Sentimento de tristeza, ansiedade e desânimo;
Cansaço ou perda de energia;
Sentimento de culpa ou de autodesvalorização;
Pensamentos constantes sobre morte ou suicídio;
Dificuldade de concentração, memória e indecisão;
Dor de cabeça, dificuldades sexuais, problemas digestivos e dores crônicas.

Esses sintomas podem variar de pessoa para pessoa em sua intensidade e forma. Um sintoma isolado não significa que esteja com depressão.
O tratamento através da associação entre psicoterapia e psiquiatria tem resultados muito satisfatórios para grande parte das pessoas que sofrem de depressão. O psiquiátrico inclui a introdução de antidepressivo e o acompanhamento para avaliar a sua eficácia. E o psicoterapêutico pode auxiliar a pessoa a entender e lidar com os sintomas da depressão e possibilitar um melhor conhecimento e desenvolvimento pessoal.

Algumas pessoas desistem do tratamento por acreditar que o medicamento não está fazendo efeito. Mas é importante lembrar que existem diversos tipos de antidepressivos e nem sempre o organismo reage de forma adequada ao primeiro medicamento. Por isso a importância de ter um acompanhamento com o psiquiatra.

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