Disfunção Sexual é a incapacidade de participar do ato sexual, com satisfação (veja), devido à dor relacionada ao intercurso ou impedimento em uma ou mais fases do ciclo de resposta sexual (desejo-excitação-orgasmo-resolução).

A Disfunção Sexual pode se manifestar como uma diminuição da libido (falta de desejo sexual), ou como uma alteração da excitação. Neste último caso entraria em jogo a inibição da sensação genital, a disfunção erétil, falta de lubrificação, ejaculação precoce ou retardada. Ainda faz parte do quadro de Disfunção Sexual os casos de retardo ou ausência do orgasmo, a dor durante, antes ou depois do coito.

A Disfunção Sexual dos homens brasileiros foi mais bem estudada através do projeto Sexualidade (ProSex), do Hospital das Clínicas da USP, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Sociedade Brasileira de Urologia. O estudo entrevistou 71.503 brasileiros com idade entre 20 e 103 anos em 24 estados. O resultado mostra que 54% dos brasileiros, pelo menos 25 milhões de homens, sofrem com algum problema de ereção (2003). Essa pesquisa também determinou com precisão a relação direta entre Disfunção Sexual e doenças como diabetes, hipertensão, depressão e problemas cardíacos. (Veja o Portal da Sexualidade)

 

Porque ocorre a Disfunção Sexual (fisiologia)

A origem da Disfunção Sexual é muito variada, podendo ser derivada também de problemas psíquicos, principalmente da depressão, de doenças orgânicas, como a diabetes e a hipertensão ou transtornos funcionais, tais como, abusos de drogas e álcool, problemas hormonais e alterações nutricionais e efeitos colaterais de medicamentos.

Tendo em vista a complexidade da fisiologia sexual, podemos dizer que a função sexual recebe influências de natureza central (Sistema Nervoso Central) e periférica (tudo o que não vem do cérebro). No Sistema Nervoso Central (SNC) sabemos que existem alguns neurotransmissores relacionados à função sexual, como por exemplo, a Dopamina, relacionada ao desejo e à excitação. Também participam da excitação a Serotonina e a Noradrenalina. Em termos de hormônios elaborados também no SNC, temos a prolactina, relacionada à excitação subjetiva e a ocitocina, diretamente relacionada ao orgasmo.

Influindo na sexualidade e fora do SNC, ressaltam-se alguns hormônios, notadamente a progesterona, o estrogênio e a testosterona, todos envolvidos na deflagração do desejo sexual (veja sobre Desejo Sexual). Portanto, inúmeros elementos, especialmente hormônios e neurotransmissores, acham-se diretamente ou indiretamente envolvidos com a função, desempenho e satisfação sexual de homens e mulheres.

A Disfunção Sexual masculina e feminina atinge, no Brasil, 51% das mulheres e 48% dos homens (Abdo, 2004) e essa incidência brasileira é comparável aos de outros países (Feldman,1994; Laudmann, 1999).

A depressão, como um dos mais importantes fatores de risco para as dificuldades sexuais, é responsável por boa parte destes índices, causando desinteresse pela atividade sexual, por comprometer especialmente o desejo e a capacidade de sentir prazer (veja em Sintomas da Depressão). Sem desejo, o ciclo do desempenho sexual fica impedido, já no seu início. Sem vocação pra o prazer e sem o desejo, as fantasias sexuais não ocorrem e os estímulos não se efetivam. Não havendo desejo, a atividade sexual é pouca ou ausente, comprometendo o relacionamento como um todo e repercutindo em outras áreas da vida do casal.

No homem deprimido, a falta de excitação se traduz na Disfunção Erétil, chamada antes de Impotência Sexual. Trata-se da incapacidade de manter a ereção para se completar o ato sexual, fato que também irá gerar frustrações e, nesse nosso tema, resultará em agravamento do estado depressivo (Veja Disfunção Erétil).

A excitação sexual feminina alterada, também conhecida como frigidez, acomete igualmente um grande número de mulheres deprimidas, tendo como conseqüência à falta de prazer ou mesmo dor durante as relações sexuais. As mulheres nessas circunstâncias evitam o ato sexual e/ou desenvolvam um sentimento de culpa, agravando ainda mais seu estado depressivo. Outro transtorno sexual freqüentemente observado entre as mulheres deprimidas, é a incapacidade de alcançar a plenitude do prazer, o que as impede de atingir o orgasmo (Veja Disfunção Sexual Feminina).

A Disfunção Sexual freqüente na Depressão pode ainda piorar mais quando, infelizmente, o próprio tratamento para a depressão acaba induzindo essas disfunções. As alterações sexuais induzidas por inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS) são referidas espontaneamente por 14,2% dos pacientes (Montejo-Gonzalez, 1997). Aliás, esses efeitos colaterais são responsáveis também pelo abandono precoce do tratamento antidepressivo.

Normalmente o tratamento antidepressivo deve estender-se por seis a nove meses em pacientes de baixo risco de recaída. Deve ir até um ano naqueles que têm antecedentes pessoais ou familiares de depressão e definitivo (anos) para pacientes crônicos ou que tiveram mais de três recaídas (10% a 15% dos casos). A falta de adesão à terapia antidepressiva, ou seja, o abandono do tratamento, é bastante grande. Normalmente os motivos alegados são, por ordem decrescente: estar se sentindo melhor, não suportar os efeitos adversos, desconforto em usar os remédios e porque o clinico recomendou parar.

O tratamento da Depressão em paciente deprimido que se queixa de Disfunção Sexual, prévia à administração medicamentosa ou como consequência da mesma, é imperioso levar-se em consideração tal questionamento, sob risco do tratamento ser interrompido, com sérias repercussões futuras.

Os pacientes frequentemente necessitam de orientação para aceitar que estar sem depressão é prioritário para não ter Disfunção Sexual. Neste sentido, é importante orientar também a(o) parceira(o). Paciente e parceira(o) devem ainda ser informados de que é grande o risco para novo episódio depressivo, se o uso da medicação for interrompido, antes do término do tratamento.

Nem todos os antidepressivos são bem tolerados por todas pessoas e quanto mais seletivo for o antidepressivo, sobre o número de produtos e locais do cérebro sobre os quais atua, menos são os efeitos colaterais.

 

Efeitos de alguns antidepressivos sobre a sexualidade

TRICÍCLICOS
Desipramina
Nortriptilina
Amitriptilina
Imipramina
Diminuição do desejo, disfunção orgástica, atraso ou ausência de orgasmo, disfunção de ejaculação e disfunção erétil.
ISRS
Citalopram
Escitalopram
Fluoxetina
Fluvoxamina
Paroxetina
Sertralina
Diminuição do desejo, disfunção orgástica, disfunção de ejaculação e diminuição da lubrificação.

 

OUTROS

Bupropiona
Aumento do desejo e diminuição de excitação (raro).

Nefazodone
Sem efeito no desejo e mínima disfunção orgástica.

Mirtazapina
Sem efeito no desejo e mínima disfunção de excitação.

Trazodone
Aumento do desejo, disfunção erétil e orgástica, priapismo (raro).

Venlafaxina
Diminuição do desejo, disfunção orgástica, disfunção erétil.

 

Investigando a Disfunção Sexual

A Disfunção Sexual pode ser primária, quando estão presentes desde o início da vida sexual, ou secundárias, quando surgem depois de um período de vida sexual normal. A Disfunção Sexual pode ainda ser generalizadas, quando estiver presente em todas as relações, ou situacionais, quando depender das circunstâncias.

Investigando a Disfunção Sexual primária, deve-se questionar:

  1. doenças pessoais e familiares, hospitalização durante a infância;
  2. experiências sexuais infantis;
  3. atitudes e crenças dos pais e educadores sobre o sexo;
  4. conflitos pessoais.

Investigando a Disfunção Sexual secundária, deve-se questionar:

  1. perdas: emprego, parceiro (a), entes queridos;
  2. conflitos relacionais;
  3. conflitos pessoais: incapacidade de envolvimento e relacionamento;
  4. ansiedade, medo, raiva, culpa.

Investigando a Disfunção Sexual generalizada, deve-se questionar:

  1. condições médicas: endocrinológicas, neurológicas, cardíacas, renais, hepáticas, psiquiátricas;
  2. efeito de medicamentos, especialmente anfetaminas, betabloqueadores, digoxina, interferon, metadona, cimetidina, indometacina, antidepressivos.

Investigando a Disfunção Sexual situacionais, deve-se questionar:

  1. o significado do sexo, num determinado relacionamento;
  2. conflitos no relacionamento com determinado (a) parceiro (a);

Situações específicas: uso de drogas ou álcool, falta de privacidade, filhos pequenos, etc.

Ballone GJ – Depressão e Disfunção Sexual (Impotência), in. PsiqWeb.