O amor possui uma complexa estrutura. Tem-se a necessidade de agrupar as várias formas de seu dinamismo em um certo número de tipos e aqui seguiremos o critério de LOPEZ.

1- Amores passageiros e duradouros

O amor passageiro seria aquele com caráter aventureiro de “fogo de palha” e o amor duradouro, ao contrário, seria estável, permanente. O autor questiona esta qualificação, pois só a duração não é capaz de medir a qualidade do amor.

O primeiro se refere ao curto tempo em que duas pessoas se relacionam, muitas vezes vivendo sentimentos enriquecedores para ambos, mas depois de um certo período de descobertas e crescimento mútuo, seguem caminhos opostos. Isto porque o convívio que teve um significado importante agora passa a não ser tão valorizado e existe então um desacordo de interesses e necessidades que justificam a separação.

Já o amor duradouro é aquele em que os parceiros permanecem longos anos juntos por motivos diversos; estes poderão ou não trazer a gratificação. Vemos que no casamento duradouro nem sempre o amor sobrevive.

2- Amor esquizóide

Este tipo de amor é contraditório e desajustado. Ora ele é avassalador, ora indiferente. É como se ele obedecesse a lei do tudo ou nada, o que causa uma grande tensão no casal, isto é, tanto naquele que sente o amor, quanto quem o inspira.

Embora nos pareça um absurdo a conduta do amor esquizóide, para quem o sente é estranho, pois lhe falta a integração e a unidade de sua personalidade “que são indispensáveis para estabelecer uma vida mental coerente e para torná-lo capaz de compreender a magna empresa da convivência e a fusão psíquica com outro ser” (LOPEZ, 1972, p. 145,150).

O autor questiona: como pode o esquizóide, que não se entende, viver bem com seu parceiro? Devido a isso, esse amor traz como conseqüência o drama, que pode ser uma ruptura brusca do amor no próprio esquizóide, ou faz com que a outra pessoa se canse da relação e tenha um esgotamento progressivo.

3- Amor paranóide

Este amor cresce e se mostra exuberante. O amante facilmente conquista o ser amado que logo será transformado no ser objeto. Ele é “extremamente egocêntrico, imperialista e absorvente, logo se enche de ciúmes e exigências que torturam e inibem a quem o recebe: discussões frequentes, violências e cenas injustificadas” (1972, p. 150).

A pessoa que resiste a um amor assim, segundo o autor, se coloca numa posição passiva e escravizada de seu amante. Este acredita que o outro está a mercê de seus caprichos, visto que sempre deseja algo que satisfaça os desejos do próprio eu. Essas exigências passam a ser constantes deixando seu par apenas como um acessório.

A pessoa que vive o amor paranóico exagera em suas fantasias, situações que estimulem sua agressividade, tornando o outro um injustiçado.

4- Amor hipomaníaco

Este amor também é exuberante. É alegre, feliz, descontraído, atraente e baseado principalmente na raiz genital. O amante hipomaníaco tem pressa em viver o máximo de suas emoções com seu par, esgotá-la e logo trocar o par por outra pessoa, e assim, sucessivamente. Ele busca seu próprio prazer, a satisfação de suas necessidades de forma intensa, mas, não se envolve na relação, sendo esta rápida e superficial. Procura constantemente esgotar ao máximo sempre novas sensações e esquecê-las com muita facilidade.

5- Amor pessimista ou melancólico

Ao contrário do amor hipomaníaco, este amor está revestido de medo e até de ressentimentos. Ele precisa de força e de desejos, pois o que ocorre é que suscita mais compaixão do que a paixão. O melancólico é pessimista, não consegue desfrutar dos prazeres da vida, é como se caminhasse para a morte. Ele próprio se condena e se encarrega de arrastar pesados fardos que exauri suas forças.

Porque quem sente o amor melancólico vê seus perigos e não goza de seus benefícios, sofre de suas dúvidas e não desfruta de seus atrativos, pede e não dá, não engana, porém, desengana, exagera os obstáculos e diminui os recursos para transpô-los…”. (LOPEZ, 1972, p. 151)

Podemos aqui referir ao amor compulsivo, que para LOPEZ, é primo irmão do melancólico e se caracteriza por ser melindroso e sensível. Extremamente ordenado em seus rituais, defensivo e controlador. Às vezes, ele demonstra ternura e esquisitices que são indicativos de uma hipersensibilidade doentia.

6- Amor ansioso

É o amor que deseja com paixão e se angustia. Ele não tem equilíbrio ou meio-termo. Oscila entre dois extremos: de entusiasmo delirante da alegria ao desespero trágico, ao pavor. Isso através do desgosto, do medo, da preocupação, da dúvida, ou seja, tudo que envolve a ansiedade.

O amante não é capaz de desfrutar do amor normal, de sua serenidade, de ser correspondido, se caracteriza por decorrer do sofrimento, não conseguindo descansar e encontrar sossego. Isso caracteriza o drama do ansioso, pois faltam-lhes a objetividade e a lógica.

7- Amor mortal

Este tipo de amor é alimentado pela raiz tânica; é pessimista, só pensa em abstrações. A pessoa que vive esse amor resume seu gozo em morrer, em sacrificar-se, em sofrer, renunciar a tudo o que possa ter o sentido de criação e vitalidade. Gosta de acumular obstáculos e dificuldades para cair vencido sobre eles e não vencê-los.

Essas pessoas escolhem o parceiro inválido e estranho, de um modo mais ou menos inconsciente elegem o objeto amoroso que seja menos indicado para retirar dele uma fonte de estímulo. “Essa eleição não é tanto por um impulso de caridade como por um desejo de acumular sofrimento no caminho, até o repouso eterno, que realmente é o fim ansiado: quanto pior se viva mais justificada está a morte” (LOPEZ, 1972, p. 153).

8- Amor imperialista, sádico e tirânico

Este amor tem como característica o orgulho, é nutrido pela vaidade, torturado pelo ciúme. O dualismo entre os dois anseios, amar e ser amado não é relevante; a pessoa tem o desejo de ser obedecida e venerada.

“Todo o interesse demonstrado para destacar os valores pessoais do cônjuge resume-se no fato de que, quanto mais se faça valer a este, mais mérito tem sua submissão e sua devoção, sua conquista e sua rendição ante o ‘dono’ (ou dona) de seu amor”. (LOPEZ, 1972, p. 154)

Conforme a ideia do autor, esse tipo de amor se refere à demonstração de afeição exigida pelo amante a fim de submeter o outro à sua própria vontade. Uma frase que definiria bem o tipo apresentado é: “se queres que te ame… merecei”.

A pessoa que submete o outro, acredita que o merecimento de seu amor consiste em resistir à sua opressão. O opressor justifica a conduta de sua paixão.

O amor imperialista domina por igual os dois membros do par erótico, ou seja, crescentes lutas e desavenças resultam em ódio. O amor traz consigo o seu oposto que alarma poderosas energias capazes de eternizar o ser e ao mesmo tempo de anulá-lo definitivamente.

A exclusão recíproca caracteriza-se pela rápida mudança da ternura à crueldade, da exaltação à humilhação, do afeto ao rancor.

O autor esclarece que seria um erro que este caso se tratasse de um amor-próprio exagerado:

as pessoas que vivem o amor absorvente e sádico são capazes de todos os ridículos, de rebaixarem-se e degradarem-se moralmente, de prejudicarem-se e perder a honra e a vida nesse cego afã de englobar e fagocitar, de um modo absoluto e completo, o ser que julgam amar”. (p. 155)

9- Amor lúbrico

Corresponde ao amor sensual. Os amantes se envolvem a fim de satisfazerem os impulsos sexuais, nada mais além disso. Dedicam-se a descobrirem-se anatomicamente, aplicando a esse desejo manobras eficientes com o intuito de estimular e aumentar os gozos sensuais.

A serviço da provocação do orgasmo genital colocam em ação novas alternativas, como mudança de ambiente, as aparências e sequência e intensidade dos preparativos. Isso ocorre sempre que existe uma ameaça de diminuição do desejo frente à repetição uniforme dos coitos. Nos intervalos forçados de repouso genital o casal se maltratam e ignoram um ao outro.

Se esse tipo de amor é igualmente sentido por ambos, pode durar bastante tempo, ainda que não alcance nível digno de consideração psicológica. Se somente é sentido por um dos componente do par, depressa cansará e enjoará do outro, que terá, entretanto, dificuldades para desfazer a união…”. (LOPEZ, 1972, p. 155)

10- Amor intelectual, criador

Este amor está sobre o dinamismo da colaboração, doação dos fins, metas e esforços complementares do par.

Na relação existe mais companheirismo e amizade de que um real intercâmbio erótico. “Quando ele se manifesta por igual nos dois componentes do par, estes se acham mais interessados em amar sua obra, que mesmo em se amarem” (p. 156).

Visto que seus pensamentos estão mais próximos e o contato amoroso é colocado em segundo plano, esses casais muitas vezes podem se realizarem sexualmente com outras pessoas. O autor acredita que esse tipo de relação onde cada qual poderá satisfazer sua libido com outros parceiros, supõe um amor dissociado, isto é, desintegrado. A desintegração sentimental poderia conduzir a graves perturbações familiares, mais sociais e éticas.

É mais compreensível e normal imaginar que os parceiros que se amam no plano intelectual sem terem que obter periódicas satisfações fisiológicas e se bastem no plano de suas simbólicas atividades.

11- Amor vaivém

O homem se interessa durante um período mais ou menos grande e atinge o máximo de seu amor enquanto a mulher “deixa-se querer”. Num certo momento o homem começa a perder o interesse e sentir-se atraído por outras imagens femininas. Ela percebe-se apaixonada, reage lançando-se à conquista, põe em ação suas artes de sedução a fim de alimentar a chama amorosa que viveu em um outro período.

Depois de passado algum tempo a mulher volta à rotina, sendo aquela que sempre foi: conservadora e tradicional. E agora é o homem que demonstra seu entusiasmo e seu arrependimento. O autor explica da seguinte forma:

…quando um aperta, o outro afrouxa, e quando este exige, o outro cede, sem chegar a produzir-se o simultâneo desinteresse ou abatimento de ambos os cônjuges, nesse caso, estariam prontos a dar por encerrada a partida”. (LOPEZ, 1972, p. 157)

12- Amor explosivo

Esse tipo de amor decorre sobre a dupla raiz sádico-masoquista, isto é, sobre a raiz agressiva e a raiz tânica; quando domina a primeira em ambos os amantes, eles entram em franca peleja e podem chegar até a agressão física; quando domina a segunda, ao contrário, cada qual deseja sacrificar-se e escravizar-se ao outro”. (p. 158)

Podemos perceber a correspondência entre as fases de atração e repulsão violenta que se alternam em ambos os amantes.

Ocorrem disputas e reconciliações selvagens: na primeira fase há um amor enlouquecido e na segunda, há ódio enlouquecido. Em cada uma delas os motivos para um ou outro comportamento se encontra reciprocamente fixados em seus objetivos: ou de se tratarem com estima ou de se magoarem, sem intervalos “neutros”.

Os pólos de atração e repulsão se alternam em um certo ritmo e periodicidade. Usam de motivos externos (sem reais motivos…) como pretexto para desencadear a mudança das fases.

No decorrer deste capítulo apresentamos idéias de autores que ilustram e percorrem as variadas formas de se entender o amor. Isso, através da influência cultural, das relações significativas na infância e algumas fases e tipos que podem servir como ponto de referência para melhor compreensão do que cada caso apresenta.

Daniela Carneiro