Abordagem Psicanalítica como funciona?
Saiba como funciona a psicanálise na prática
1. O que define essencialmente a abordagem psicanalítica?
A psicanálise é um método clínico que se baseia na premissa de que nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos são influenciados por processos mentais inconscientes. Diferente de outras terapias que focam na mudança imediata de comportamento, a psicanálise busca a raiz dos conflitos.
O foco está na exploração do inconsciente — aquele “depósito” de desejos, memórias traumáticas e impulsos que, embora não acessíveis diretamente pela consciência, ditam a forma como reagimos ao mundo, escolhemos nossos parceiros e lidamos com o sofrimento.
2. Como funciona o conceito de “Inconsciente” na prática clínica?
Para a psicanálise, o inconsciente não é um lugar físico, mas uma instância dinâmica. Imagine um iceberg: a ponta visível é a consciência, enquanto a vasta massa submersa representa o inconsciente.
Na sessão, o psicanalista trabalha para identificar padrões que emergem dessa parte submersa. Isso ocorre através de atos falhos (trocar palavras sem querer), sonhos e, principalmente, através da repetição de sintomas que o paciente não consegue explicar racionalmente. O objetivo é tornar consciente o que é inconsciente, dando ao indivíduo maior liberdade de escolha.
3. O que é a “Associação Livre” e por que ela é usada?
A regra fundamental da psicanálise é a associação livre. Diferente de uma conversa social onde filtramos o que dizemos para parecer coerentes ou educados, na psicanálise o paciente é convidado a dizer tudo o que lhe vier à mente, sem julgamento moral ou lógico.
Ao suspender essa autocrítica, o paciente permite que conteúdos reprimidos comecem a emergir. É nesse fluxo de pensamentos aparentemente desconexos que o analista identifica as “fendas” por onde o inconsciente se manifesta, revelando núcleos de conflito que a lógica racional costuma esconder.
4. Qual é o papel do psicanalista durante as sessões?
Muitos acreditam que o analista é uma figura passiva que apenas ouve. Na realidade, ele exerce uma escuta flutuante. O analista não foca apenas no conteúdo da história, mas na forma como ela é contada: as pausas, as contradições e o que é omitido.
O papel do profissional é atuar como um espelho e um intérprete. Ele intervém através de pontuações e interpretações que ajudam o paciente a dar um novo sentido à sua própria história. O analista mantém uma neutralidade benevolente para que o paciente possa projetar nele suas figuras de autoridade ou afeto, um fenômeno essencial chamado de transferência.
5. O que são a Transferência e a Contratransferência?
Estes são os pilares da cura psicanalítica:
- Transferência: É quando o paciente projeta no analista sentimentos, desejos ou expectativas que originalmente pertenciam a figuras importantes de seu passado (como pais). Se o paciente sente uma raiva inexplicável pelo analista, isso pode ser a repetição de um conflito antigo sendo atualizado ali, no “aqui e agora” da sessão.
- Contratransferência: Refere-se às reações emocionais que o analista sente em relação ao paciente. O profissional utiliza esses sentimentos como ferramenta de diagnóstico para entender o que o paciente evoca nos outros.
6. Como a psicanálise entende a formação da personalidade (Id, Ego e Superego)?
A abordagem utiliza o modelo estrutural da personalidade para explicar os conflitos internos:
- Id: A fonte dos impulsos biológicos e desejos imediatos, operando pelo princípio do prazer.
- Superego: A voz da moralidade, das normas sociais e das exigências internas de perfeição.
- Ego: O mediador. Ele tenta equilibrar as demandas impulsivas do Id com as restrições severas do Superego, sempre considerando a realidade externa.
O sofrimento psíquico muitas vezes surge quando esse equilíbrio é rompido, gerando ansiedade e mecanismos de defesa.
7. O que são os Mecanismos de Defesa?
Quando o Ego se sente ameaçado por um desejo do Id ou por uma punição do Superego, ele aciona mecanismos de defesa para reduzir a ansiedade. Alguns dos mais comuns estudados em 2025/2026 são:
- Repressão: Empurrar um pensamento perturbador para fora da consciência.
- Projeção: Atribuir a outra pessoa um sentimento que é, na verdade, seu.
- Sublimação: Canalizar impulsos destrutivos para atividades socialmente aceitas, como a arte ou o esporte.
- Formação Reativa: Agir de forma oposta ao que se sente (ex: ser excessivamente gentil com alguém que você detesta).
8. Por que a análise costuma ser um processo longo?
Diferente de terapias focadas em protocolos de curto prazo, a psicanálise reconhece que a personalidade levou décadas para se estruturar. Sintomas como depressão ou ataques de pânico são vistos como a “ponta do iceberg”.
Remover o sintoma sem entender sua função psíquica pode levar à substituição de sintomas (o indivíduo para de beber, mas desenvolve uma compulsão por compras). A análise leva tempo porque busca uma reestruturação profunda da forma como o sujeito se posiciona diante do desejo e da falta.
9. Qual a diferença entre a Psicanálise de Freud e as abordagens modernas (Lacan, Winnicott, Klein)?
Embora todos partam do inconsciente, as escolas evoluíram:
- Melanie Klein: Focou nas relações primordiais entre o bebê e a mãe (objetos internos).
- Winnicott: Introduziu a importância do “ambiente facilitador” e da capacidade de brincar para a saúde mental.
- Jacques Lacan: Trouxe a linguística para a psicanálise, afirmando que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” e focando no desejo do Outro.
Em 2026, a psicanálise contemporânea integra esses conceitos para lidar com as novas patologias da atualidade, como o vazio existencial e o esgotamento digital.
10. Para quem a abordagem psicanalítica é indicada?
A psicanálise é indicada para qualquer pessoa que deseje não apenas “curar” um sintoma, mas compreender quem ela realmente é por trás das máscaras sociais. É eficaz para transtornos de ansiedade, depressão, questões de identidade, lutos persistentes e, principalmente, para pessoas que percebem que estão repetindo padrões autodestrutivos em sua vida amorosa ou profissional.
Concluindo
A abordagem psicanalítica não oferece respostas prontas ou manuais de felicidade. Ela oferece um percurso de verdade. Ao enfrentar as próprias sombras e reconhecer a complexidade do inconsciente, o indivíduo deixa de ser “vivido” por seus impulsos e passa a ser, de fato, o autor de sua própria história.
Psicóloga Daniela Carneiro









