Abuso no Relacionamento Íntimo

É fato sabido que as relações íntimas, maritais, coabitacionais ou de namoro são, por vezes, pautadas pela presença de algum tipo de disfunção e, não raro, de abuso franco. De fato, em outra página dissemos que “existem relações amorosas claudicantes, onde a pessoa que ama não deseja apenas o outro, mas deseja também o desejo do outro, o sentimento do outro e tudo o que possa estar ocorrendo na intimidade psíquica do outro. Diante da impossibilidade de nos apossarmos do sentimento alheio, a pessoa que ama sofre, pois o outro pode não estar sentindo aquilo que se deseja que sinta, pode não estar pensando justamente aquilo que se deseja que pense.

Na medida em que as pretensões de controle sobre os sentimentos da pessoa amada não são contidas, não são ponderadamente refreadas, surge uma imperiosa inclinação para a posse, para o domínio da pessoa amada.” (Complicações do Amor)

O abuso no relacionamento interpessoal íntimo tem efeitos danosos marcantes na qualidade de vida, na saúde física e emocional. Tem sido frequente o comportamento abusivo no relacionamento íntimo, com prevalência variada em diversos países e através de alguns tipos de abuso, como por exemplo, abusos físico, sexual e psicológico.

Entre os estudos e reflexões sobre o comportamento abusivo na vida íntima e/ou conjugal existe a teoria da vinculação afetiva na infância, enfatizando o impacto da qualidade das relações familiares e o impacto de eventuais abusos sofridos durante a infância, os quais, por sua vez, interfeririam na qualidade do relacionamento com o companheiro na idade adulta.

 

Incidência acima do que se suspeita

A incidência desse tipo de comportamento abusivo se comprova alta, acima do que se suspeita, e é mais comum no início da idade adulta (Bachman, 1995), sendo o grupo que mais apresenta comportamento violento dos 19 aos 29 anos de idade.

Incidência de comportamento abusivo no relacionamento íntimo é um dado difícil de se pesquisar, notadamente porque existe uma tendência a ocultar esse tipo de comportamento dos demais. Na maioria das vezes o relacionamento não se desfaz porque o companheiro(a) não abusivo(a) insiste em acreditar que, de uma hora para outra, mediante amor, carinho, complacência e tolerância, haverá uma grande mudança na personalidade do outro, que passará a ser a pessoa ideal.

Os aspectos sobre prevalência desses casos são baseados no trabalho de Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, do Departamento de Psicologia da Universidade do Minho, publicado na revista Psicologia, Saúde & Doenças (2003). Afirmam que em 1981, pela primeira vez foi referido que 21% dos estudantes pré-universitários vivenciaram um ou mais atos de agressão física em suas relações com o(a) companheiro(a). (Makepeace). Estima-se que 4 milhões de mulheres norte-americanas são vítimas de algum tipo de agressão séria por parte do companheiro por ano, destas, cerca de 1 milhão são vítimas de violência física não fatal (Rush, 2000).

Segundo Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, no ano de 1996 as estatísticas oficiais norte-americanas mostraram que 1,5 milhões de mulheres e 834.700 homens sofreram abuso físico ou sexual por parte do(a) companheiro(a). Em 1998, cerca de 1.830 homicídios foram atribuídos ao companheiro, sendo que 3/4 das vítimas são mulheres (Rennison, 2000). Entre os anos de 1993 e 1998, cerca de 2/3 das vítimas de abuso pelo companheiro referem sequelas físicas, enquanto que 1/3 reporta apenas ameaças ou tentativas de violência.

Outro fato bastante conhecido das pesquisas e das entidades que prestam assistência à esse tipo de problema, é que a maioria das vítimas de abuso pelo(a) companheiro(a) não procura assistência policial, jurídica ou médica.

Abuso físico; comum em muitos países.

O uso de ameaça, força física ou restrição imposta a outro no sentido de coagir, obrigar, castigar, causar dor ou injúria é um abuso físico. Esse abuso físico tem sido pesquisado entre as pessoas com relacionamento íntimo e, segundo ainda Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, autores norte-americanos (Sugarman, 1989) constataram que cerca de 33 a 36% de estudantes de ambos os sexos e com relacionamento íntimo já foram vítimas de abuso físico.

A incidência entre os estudantes tem sido quase a mesma da população geral, pois outros autores (Stets, 1991), em amostra representando a população geral norte-americana de pessoas não casadas e com idades entre os 18 e os 30 anos, verificaram que 30% das pessoas referia ter sido vítima de agressão física, nos 12 meses que antecederam a pesquisa.

Insistimos, de novo, que há possibilidade desses números não refletirem a dimensão real do problema, principalmente quando as pesquisas não são têm a natureza totalmente anônima do entrevistado. É bastante conhecido por pesquisadores e por entidades que prestam assistência à esse tipo de problema, que a maioria das vítimas de abuso pelo(a) companheiro(a) não procura assistência policial, jurídica ou médica.

Ao contrário do que se acredita, abusar fisicamente não é monopólio do sexo masculino. Em 2002, de acordo com o trabalho de Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, citando Straus, Aldrighi, Borochowitz, Brownridge, Chan, Figueiredo, et al., considerando uma amostra de 3.086 estudantes universitários de ambos os sexos oriundos de 14 países, constatou-se que 28,2% dessas pessoas relatou ter perpetrado algum tipo de abuso físico sobre o(a) companheiro(a), sendo 27,7% do sexo masculino e 28,7% do sexo feminino. Ainda nessa amostra, em 9,7% dos casos se verificam formas mais severas de abuso físico.

Entre os países pesquisados, no México é onde se encontraram os maiores valores de abuso físico no relacionamento íntimo, chegando a acometer 51% dos entrevistados, sendo mais frequente também suas formas mais severas (15,9%). A menor a prevalência de abuso físico perpetrado sobre o companheiro foi registrado no Canadá, tanto para o abuso físico total (16,1%), como para as formas mais severas deste tipo de abuso (5,8%).

Quando as vítimas são homens, normalmente a violência física não é praticada diretamente, tendo em vista a habitual maior força física dos homens. Havendo intenções agressivas por parte da mulher, esses atos podem ser cometidos por terceiros, como por exemplo, parentes da mulher ou profissionais contratados para isso. Outra modalidade são as agressões que tomam o homem de surpresa, como por exemplo, durante o sono.

 

Abuso sexual

O abuso sexual é qualquer conduta sexual com uma criança levada a cabo por um adulto ou por outra criança mais velha. Isto também pode significar, além da penetração vaginal ou anal na criança, tocar seus genitais ou fazer com que a criança toque os genitais do adulto ou de outra criança mais velha, ou o contacto oral-genital ou, ainda, roçar os genitais do adulto com a criança.

Às vezes ocorrem outros tipos de abuso sexual que chama menos atenção, como por exemplo, mostrar os genitais de um adulto a um criança, incitar a criança a ver revistas ou filmes pornográficos, ou utilizar a criança para elaborar material pornográfico ou obsceno.

Entre adultos, o abuso sexual é habitualmente definido como “uma interação sexual conseguida contra a vontade do outro, através do uso da ameaça, força física, persuasão, uso substâncias facilitadoras ou outro recurso a uma posição de autoridade” (veja Abuso Sexual Infantil).

Segundo ainda Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, em torno de 28% das mulheres refere ter sido violada (com penetração completa) por um namorado, “ficante” ou pessoa conhecida. Quando se considera abuso sexual a partir de tentativa de violação, a proporção de sobe para 39% (Koss, 1988).

Entre estudantes universitários pesquisados, cerca de 15,7% das mulheres e 4,4% dos homens relatam abuso sexual pelo companheiro. Esse estudo de Straus (2002), mostra ainda que 24,7% das pessoas (3086) de 14 países coagiram sexualmente a(o) companheira(o), sendo 39,9% do sexo masculino e 18,6% do sexo feminino. No Brasil, infelizmente, essas taxas de coerção sexual sobre o companheiro são mais elevadas (41,6%) e no Canadá são as menores (5,9%).

Mas, seja qual for o número de abusos sexuais em crianças mostrado nas estatísticas, seja quantos milhares forem, devemos ter em mente que, de fato, esse número pode ser bem maior. A maioria desses casos não é reportada, tendo em vista que as crianças têm medo de dizer a alguém o que se passou com elas.

 

Abuso psicológico

O abuso psicológico é um padrão de comunicação, verbal ou não, com a intenção de causar sofrimento psicológico em outra pessoa, segundo Straus, (1992), citados por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo. Esses pesquisadores encontram valores elevados de prevalência de abuso psicológico em amostra de 5232 casais norte-americanos. Nesta forma de abuso houve semelhança entre homens (26%) e mulheres (25%).

Muitas vezes o abuso psicológico é a única forma de abuso entre o casal, talvez por se tratar de uma atitude menos detectada como politicamente incorreta. Em amostra de 1152 mulheres com idades entre 18 e 65 anos, observam que 53,6% relatam alguma forma de abuso (físico, sexual ou psicológico) perpetrado pelo companheiro, sendo que 13,6% reportam especificamente abuso psicológico na ausência dos outros tipos de abuso (Coker, 2000).

O abuso psicológico é, às vezes, tão ou mais prejudicial que o abuso físico, e se caracteriza por rejeição, depreciação, discriminação, humilhação, desrespeito e punições exageradas. Não é um abuso perpetrado predominantemente pelos homens, como é o caso do abuso físico. Ele existe em iguais proporções em homens e mulheres. Trata-se de uma agressão que não deixa marcas corporais visíveis, mas emocionalmente causa cicatrizes indeléveis para toda a vida (veja Violência Doméstica).

Um tipo comum de abuso psicológico é a que se dá sob a autoria dos comportamentos histéricos, cujo objetivo é mobilizar emocionalmente o outro para satisfazer a necessidade de atenção, carinho e adulação. A intenção do(a) agressor(a) histérico(a) é mobilizar o outro(a) tendo como chamariz alguma doença, alguma dor, algum problema de saúde, enfim, algum estado que exige atenção, cuidado, compreensão e tolerância.

Outra forma de abuso psicológico é fazer o outro se sentir inferior, dependente, culpado ou omisso é um dos tipos de agressão emocional dissimulada mais terríveis. A mais virulenta atitude com esse objetivo é quando o agressor faz tudo corretamente, impecavelmente certinho, não com o propósito de ensinar, mas para mostrar ao outro o tamanho de sua incompetência.

Stets (1990), citado por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, em uma ampla investigação com a população americana, verifica que 65% dos homens têm comportamentos de abuso verbal ou psicológico com a companheira.

Agressões Psicológicas são aquelas que, independentemente do contacto físico, ferem moralmente. A Agressão Psicológica, como nas agressões em geral, depende do agente agressor e do agente agredido. Quando não há intencionalidade agressiva e o agente agredido se sente agredido, independentemente da vontade do agressor, a situação reflete uma sensibilidade exagerada de quem se sente agredido.

Havendo intencionalidade do agressor, o mal estar emocional produzido por sua atitude independe da eventual sensibilidade aumentada do agente agredido e outras pessoas submetidas aos mesmos estímulos, se sentiriam agredidas também.

A Agressão Psicológica é especialidade do meio familiar, e muito possivelmente, dos demais relacionamentos íntimos, chegando-se ao requinte de agredir intencionalmente com um falso aspecto de estar fazendo o bem ou de não saber que está agredindo. O simples silêncio pode ser uma agressão violentíssima. Isso ocorre quando algum comentário, uma posição ou opinião é avidamente esperado e a pessoa, por sua vez, se fecha num silêncio sepulcral, dando a impressão politicamente correta de que “não fiz nada, estava caladinho em meu canto…”. Dependendo das circunstâncias e do tom como as coisas são ditas, até um simples “acho que você precisa voltar ao seu psiquiatra” é ofensivo ao extremo, assim como um conselho falsamente fraterno, do tipo “não fique nervoso e não se descontrole”.

Não é o frequente, no relacionamento íntimo, a agressão sem intencionalidade de agredir, ou seja, a agressão que é sentida pelo agente agredido, independentemente da vontade do agressor. Normalmente, pelo fato da família ser um grupo onde seus membros têm pleno conhecimento da sensibilidade dos demais, mesmo que a situação de agressão refletisse uma sensibilidade exagerada de quem se sente agredido, o agressor não-intencional deveria ter plena noção das consequências de seus atos. Portanto, argumentar que “não sabia que você era tão sensível” é uma justificativa hipócrita.

As atitudes agressivas refletem a necessidade de uma pessoa produzir alguma reação negativa em outra, despertar alguma emoção desagradável. As razões dessa necessidade são variadíssimas e dependem muito da dinâmica própria de cada família. Podem refletir sentimentos de mágoa e frustrações antigas ou atuais, podem refletir a necessidade de solidariedade emocional não correspondida (estou mal logo, todos devem ficar mal), podem representar a necessidade de sentir-se importante na proporção em que é capaz de mobilizar emoções no outro…. enfim, cada caso é um caso.

 

CAUSAS

De acordo com Armando Correa de Siqueira Neto), colaborador de PsiqWeb, nas relações humanas, sobretudo na vida conjugal, observam-se comportamentos variados. Inicialmente, se evidencia o poder do envolvimento e o êxtase exercido pela atração das partes que se conhecem. Escolhemos os nossos pares pelo comportamento aparente. E, aquilo que queremos para nós, depositamos nesse outro. Durante o período de namoro não nos permitimos ver, realmente, quem ele é. Com a chegada da rotina no relacionamento torna-se possível conhecer a pessoa como ela é de verdade. Então, começam a surgir os problemas, haja vista o fato de iniciar-se uma intolerância com relação aos defeitos do outro.

1 – Teoria da Vinculação
Embora as causas do abuso com o companheiro se devam a uma grande diversidade de circunstâncias, merece um destaque muito especial a Teoria da Vinculação. Estudos empíricos sobre a importância da Teoria do Vínculo nos relacionamentos íntimos mostram que crianças traumatizadas, maltratadas, abusadas, abandonadas, ou seja, com prejuízo na formação do Vínculo Afetivo durante a infância apresentam, com frequência, modelos inseguros de representação da realidade na idade adulta, com conseqüentes dificuldades no relacionamento íntimo. No futuro essas pessoas são, com mais freqüência, vítimas ou perpetradores de maus tratos nas relações interpessoais com as pessoas significativas. Além disso, através dessa Teoria do Vínculo, a pessoa vítima de maus tratos durante a infância constrói padrões inseguros de vinculação no relacionamento íntimo na idade adulta.

O Vínculo Afetivo descrito por Brazelton (1988) tem início na gestação e continua através das interações que vão ocorrendo posteriormente. Bee (1997) relata que o contato imediato após o parto parece aprofundar a capacidade de a mãe (e talvez também do pai) responder em relação ao bebê. Alguns psicólogos acreditam que a capacidade de formação de vínculo social é resultado da maturação e que deve ocorrer algum relacionamento logo no início da vida da criança se quiser que esta seja capaz de, mais tarde, formar vínculos significativos.

Estudos de Bowlby (1990) e Hoffman, Paris e Hall (1996) sobre o vínculo entre mãe e filho ressaltam a importância desta dinâmica afetiva. Eles descrevem que essa ligação faz parte de um sistema comportamental cuja serventia esta ligada à preservação da espécie. Tal relação se deve ao fato de os bebês serem indefesos e incapazes de sobreviver sozinhos, então o apego entre o bebê e o seu cuidador viabiliza uma garantia de preservação.

Muitos obstáculos nas relações humanas estão ligados a esta precariedade do Vínculo Afetivo. O casal não consegue perceber este tipo de deficiência em seu relacionamento. Focaliza os problemas em outras questões, ou ainda, prefere nem tocar no assunto. Há casos em que ignora a possibilidade de lançar mão de uma psicoterapia. E, existem situações em que a resistência impera. Fato comum é dizer que não se precisa de tratamento algum, pois que as dificuldades são de outra ordem. Todavia, perde-se a chance de resolver na causa os efeitos de uma convivência difícil.

A Teoria do Vinculo Afetivo ou da vinculação foca-se na emergência e desenvolvimento dos “modelos” adquiridos durante o desenvolvimento infantil e no papel que tais modelos desempenham nas relações interpessoais futuras, ao longo do ciclo de vida. Acredita-se que as experiências vividas nos primeiros (seis) anos de vida são muito importantes para a construção do self e na estruturação do mesmo. Esses modelos internos construídos durante o desenvolvimento precoce se manifestarão nas futuras relações interpessoais íntimas e estabelecidas na idade adulta. Veja ideia de Self.

Decorrente das experiências e dos padrões de interação com as figuras significativas durante a infância, cada pessoa, possivelmente, constrói modelos internos e dinâmicos que servirão de guia do comportamento e das atitudes futuras, notadamente do comportamento interpessoal.

Também, de acordo ainda com esses modelos internos dinâmicos resultantes do vínculo estabelecido durante o desenvolvimento precoce da personalidade, a pessoa estabelece suas expectativas particulares sobre o que pode esperar de si própria e dos outros, sobre o que o outro deve corresponder, retribuir, se comportar… principalmente desse outro íntimo, ou seja, das figuras de vinculação afetiva que surgirão ao longo da vida.

Há casos em que ignora a possibilidade de lançar mão de uma psicoterapia. E, existem situações em que a resistência impera. Fato comum é dizer que não se precisa de tratamento algum, pois que as dificuldades são de outra ordem. Todavia, perde-se a chance de resolver na causa os efeitos de uma convivência difícil.

Ao observar os conceitos sobre o Vínculo Afetivo, bem como as suas implicações no ser humano, é possível prospectar formas favoráveis e desfavoráveis de relacionamento ao longo da vida. Se a formação da personalidade de uma pessoa contar com a existência de um vínculo precário, torna-se incompatível a existência de um relacionamento conjugal. Em relatos clínicos obtêm-se históricos onde o marido ou a esposa não tiveram essa formação vincular positiva com os seus pais. Posteriormente, na vida a dois, encontram dificuldades em manter o relacionamento por falta desta condição vincular.

Uma das disfunções no relacionamento íntimo decorrente da precariedade do Vínculo Afetivo pode ser chamada de Síndrome do Comportamento de Hospedagem, segundo Armando Correa de Siqueira Neto. Neste novo tipo de comportamento abusivo a pessoa age, inconscientemente, de forma semelhante a um hóspede dentro de sua própria casa. Realiza as suas atividades de maneira formal, impessoal e, aparentemente, desprovidas de alguma tonalidade afetiva, mantendo nesses padrões a comunicação e os hábitos rotineiros, inclusive os financeiros.

Nesta forma polida e até politicamente correta de agredir ao outro se nota uma certa frieza e um distanciamento formal. Aos poucos vai agindo como se fosse alguém que está hospedado na casa, cumprindo com alguns papéis pertinentes, todavia, trata as questões, antes emocionalmente importantes de forma racional, formal e independente. Normalmente deixa as responsabilidades, sobretudo as domésticas, para o outro cuidar. Onde havia uma atmosfera de cordialidade e doçura, passa a existir um espectro de isolamento e pesar. O outro vai percebendo, sensivelmente, as diferenças no tratamento recebido e acaba por se sentir, pouco a pouco, só. A sensação deste isolamento origina-se na forma pela qual a ausência do vínculo se manifesta nesta relação.

Quanto às uniões conjugais dos padrões Vínculo Afetivo “seguro” com “inseguros”, estudos desenvolvidos no ambiente conjugal mostram que pessoas adultas com padrão de vinculação “seguro” tendem a juntar-se com companheiros(as) também “seguros(as)”. Entretanto, algumas teorias argumentam que a união íntima “seguro/inseguro” poderá funcionar como “amortecedora” da ação maltratante por parte do companheiro(a) inseguro(a).

2 – Uso Abusivo de Álcool e Substâncias Psicoativas.
O uso de substâncias psicoativas (maconha e cocaína) está envolvido em até 92% dos episódios notificados de violência doméstica (Brookoff, 1997). O efeito desinibidor causado pelo álcool frequentemente facilita a violência e estimulantes como cocaína, crack e anfetaminas também estão envolvidos em grande número de episódios abuso de violência em ambiente doméstico ou de relacionamento íntimo.

Em relação aos abusos sexuais, a Associação Médica Americana relata que o estupro representa 54% dos casos de violência marital, e o uso de álcool parece estar envolvido em até 50% dos casos (Bhatt, 1998). Homens casados violentos possuem índices mais altos de alcoolismo em comparação àqueles não violentos. Estudos relatam índices de alcoolismo de 67% e 93% entre maridos que espancam suas esposas. Bhatt mostra que entre homens alcoolistas em tratamento, 20 a 33% relataram ter atacado suas mulheres pelo menos uma vez no ano anterior ao estudo, ao passo que suas esposas relatam índices ainda mais elevados.

Monica Zilberman e Sheila Blume (2005), da Universidade de São Paulo, apresentaram trabalho mostrando a importância do entendimento por parte dos profissionais de saúde sobre o abuso de violência no ambiente doméstico, bem como suas conexões com o uso, abuso e dependência de substâncias psicoativas. Esses problemas envolvem não apenas os pacientes, mas também seus parceiros, filhos e idosos, influenciando o bem-estar físico e psicológico de toda a família.

Dados importantes desta pesquisa ressaltam que, estando envolvido o suo de substâncias psicoativas nesse problema, sua redução do uso automaticamente elimina o abuso físico e sexual. Apesar de pesquisas recentes mostrarem que o tratamento do alcoolismo está associado à redução da violência pelo parceiro, isso nem sempre ocorre.

Em relação ao alcoolismo, o estudo de O”Farrell (2003) mostrou que no ano que precedeu o tratamento de alcoolismo, 56% desses homens alcoolistas relataram ter sido violentos contra suas parceiras, contra 14% dos homens da amostra controle, sem alcoolismo. Um ano após o tratamento para alcoolismo, o índice caiu significativamente para um total de 25%, depois de conseguida a abstinência desses pacientes, a violência decresceu para 15% (similar aos controles).

3 – Personalidade e Abuso no Relacionamento Íntimo
Além dos efeitos das drogas e do álcool que estariam associados ao comportamento abusivo no relacionamento íntimo, também pessoas portadoras de Transtorno de Personalidade Anti-Social, de Transtorno Explosivo de Personalidade e de algum outro estariam mais propensas ao comportamento abusivo (nem sempre violento e agressivo). Mas não falamos de Transtornos Mentais de forma geral, pois, boa parte das pesquisas não encontrou diferença na prevalência da violência em doentes mentais sem abuso de substâncias, quando comparados com a população geral. O risco de violência em indivíduos da população geral com abuso de álcool ou drogas foi duas vezes maior do que em pacientes esquizofrênicos sem esse abuso. Finalmente, o maior risco de violência ocorre na combinação de abuso de álcool e/ou drogas com transtornos de personalidades, que não são consideradas doenças mentais francas.

A tendência a comportamentos irritadiços, agressivos, violentos, à carência de atenção, entre outros traços, pode ser entendida sob vários pontos de vista, notadamente como traços de personalidade, como respostas aprendidas no ambiente, como reflexos estereotipados de determinados tipos de pessoas ou até como manifestações psicopatológicas. Veja Violência e Personalidade.

Entre pessoas intimamente relacionadas é impossível considerar o comportamento abusivo como um evento em si, emancipado das circunstâncias e contingências. Primeiramente, devemos considerar o abuso a partir do agente agressor, depois, a partir do agente agredido e, finalmente, a partir de um observador ou terceiro. Não surpreenderá encontrarmos três representações diferentes de um mesmo evento.

Do ponto de vista do agressor, deve-se considerar a intencionalidade dolosa do ato abusivo, ou seja, a tentativa intencional de uma pessoa em transmitir estímulos nocivos à outro. Para o agredido, deve-se considerar o sentimento de estar sendo agredido ou prejudicado e, quanto ao observador, deve-se considerar seus sentimentos críticos acerca da possibilidade de ter havido nocividade no ato em apreço, bem como sua intencionalidade (subjetiva) em promover a agressão.

Essas variáveis implicam em considerar, por exemplo, que a mulher pode se sentir agredida pelo silêncio do marido, caso estivesse ansiosamente esperando por algum comentário ou diálogo, mesmo se esperasse um comentário hostil. O marido, por sua vez, deve ser consultado sobre suas intenções lesivas ao optar por uma postura silenciosa. Ele tanto poderia estar silencioso por desinteresse, por ser calmo e amistoso, quanto por ter planejado ferir a mulher através do silêncio. Neste último caso, estaríamos diante de um ato de abuso psicológico e sem agressão física. A mesma cena poderia não ter um resultado agressivo, caso a mulher não se sinta agredida apesar da eventual intencionalidade agressiva do marido.

 

Consequências do abuso nos relacionamentos íntimos

As experiências de abuso (físico, psicológico e sexual) no contexto do relacionamento íntimo entre pessoas, têm efeitos adversos a curto e em longo prazo, como por exemplo, a questão da violência contra a(o) companheira(o). De modo geral, as mulheres vítimas de abuso do contexto da relação com o companheiro recorrem mais frequentemente a serviços médicos, ficam mais dias de cama e exibem mais sintomas de estresse e depressão, assim como ideação e/ou tentativas de suicídio, transtorno de estresse pós-traumático, baixa auto-estima, abuso de álcool e de outras drogas.

Os efeitos em curto prazo das vivências de abuso envolvem várias reações emocionais significativas como, por exemplo, o medo, raiva, isolamento, ansiedade aguda, somatizações (palpitações, dores, falta de ar, etc), recrudescimento de doenças psicossomáticas (gastrointestinais, cardiocirculatórias, etc) e angústia (Koss, 1993).

Os efeitos da qualidade dos relacionamentos íntimos sobre o estado de saúde têm sido cada vez mais estudados. Em longo prazo o abuso sexual pode causar depressão, disfunção sexual, abuso e dependência de drogas e álcool, sintomas de estresse pós-traumático e sintomas dissociativos.

Em relação ao abuso físico e psicológico, as consequências incluem a depressão, sentimentos de elevada desconfiança em relação aos membros do sexo oposto, hipervigilância, tensão, sobressaltos e baixa auto-estima (Lloyd, 1993). Cascardi, (1999), por sua vez, mostrou que em 92 mulheres vítimas de abuso físico pelo companheiro, 29,8% apresentava critérios suficientes para diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático e 32% critérios para Transtorno Depressivo Maior.

É preciso entender também que o abuso no relacionamento interpessoal íntimo é um forte estressor, capaz de ocasionar na vítima um processo de alterações neuropsíquicas, de natureza também orgânica. Damásio (1994), citado por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, salienta a importância das estruturas cerebrais límbicas (amígdala, hipocampo) e do córtex pré-frontal, na troca de informações entre os estímulos recebidos, as respostas a acionar e a carga emocional respectiva. No processo de resposta ao estresse existe uma integração cortical e límbica que modula a resposta imunológica e o controlo das respostas autonômica e endócrina.

Experiências repetidas sobre o estresse psicológico sugerem o surgimento conseqüente de emoções negativas como depressão, hostilidade, raiva, agressão, todas fortemente relacionadas com o sistema imunológico e com a saúde geral. Veja Psiconeuroimunologia.

Paiva e Figueiredo, citando Jacobson, Gottman, Waltz, Rushe, e Babcock (1993), referem avaliação de casais violentos e não violentos associados à experiência de raiva e medo. Verificam que, comparados com os casais não violentos, nos casais violentos, quer na vítima quer no agressor, se observam valores mais elevados de raiva e maior ativação do sistema nervoso autônomo com suas consequências orgânicas. Veja Cardiologia e Psicossomática e Hipertensão Arterial e Arritmia Cardíaca.

Muitos autores, ainda citados por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo (Campbell et al., 2002; Cascardi, Langhinrichsen, & Vivian, 1992; Goldberg & Tomlanovich, 1984; McCauley, Yurk, Jenckes, & Ford, 1998) comparam mulheres com e sem experiência de abuso pelo companheiro e observam que as mulheres abusadas reportam maior número de sintomas físicos, tais como, dores de cabeça, dores de costas, doenças sexualmente transmissíveis, dor pélvica, corrimentos vaginais, dor no ato sexual, infecções urinárias, perda de apetite, dor abdominal, problemas digestivos, e outros problemas relacionados ao estresse crônico.

 

Conclusão

Contribuem para a qualidade do relacionamento íntimo com o companheiro um conjunto de circunstâncias; sejam de natureza pessoal, comportamental, e sociocultural. O tipo de relacionamento mantido com os pais durante a infância tem um importante papel na formação do Vínculo Afetivo e implicações no desenvolvimento de modelos íntimos e dinâmicos de comportamento e atitude afetiva diante da vida de relações, bem como em certas estruturas neuroanatômicas, as quais interferem significativamente no relacionamento interpessoal futuro.

As relações abusivas durante a infância se associam à formação de vínculos “inseguros”, perpetuando maneiras alteradas de relacionamento, normalmente também abusivas em diversas circunstâncias de vida, notadamente no relacionamento íntimo.

O efeito da qualidade das relações interpessoais íntimas na saúde das pessoas tem sido cada vez mais estudado. A presença de relações interpessoais íntimas positivas traz benefícios para a saúde geral das pessoas, especialmente atenuam as diversas adversidades da vida.

Ballone GJ – Abuso nos Relacionamentos Íntimos – in. PsiqWeb.