Sempre ouvimos dizer que exercício físico “faz bem”. Na maioria das vezes trata-se de uma recomendação popular, muito mais popularmente sabida do que cientificamente comprovada. A primeira questão é saber o que, exatamente, significa esse “faz bem”? Bem para que e como?

Em psiquiatria, também é voz corrente que os exercícios “fazem bem”, mas poderíamos acrescentar à lista das coisas que popularmente “fazem bem”, e com os mesmos critérios intuitivos, o guaraná em pó, brócolis, clorofila, ioga, etc…

Mas, de fato, os exercícios físicos têm um efeito fascinante na população geral. Em 2003 foi realizada uma pesquisa com estudantes universitários do campus da UNESP de Bauru, através de um website de saúde. Entre os hábitos de vida considerados mais prejudiciais foram citados, em ordem decrescente a má alimentação, uso de bebidas alcoólicas, sedentarismo, dormir mal e fumar. Por outro lado, como hábitos saudáveis, a prática regular de exercícios físicos aparece em primeiro lugar, considerado por 42% dos estudantes.

Apesar da expressiva quantidade das pessoas pesquisadas que acha os exercícios o hábito mais salutar de vida, 40% delas pratica exercícios menos de 3 vezes por semana, quase 40% mais de três vezes por semana e 20% nunca pratica nada.

De fato, a prática de exercícios faz bem, no entanto, para não ficarmos apenas no popularmente sabido, vamos ver mais academicamente os efeitos dos exercícios físicos na saúde emocional. Já foi visto na página Ansiedade e Esportes, algo sobre a influência da ansiedade na performance dos esportes ou esportistas.

Agora, vejamos a influência dos esportes e exercícios em geral (atividade neuro-muscular) sobre as alterações psico-emocionais e vice-versa, ou seja, as alterações sobre o sistema neuro-muscular causadas pelas emoções. Tecnicamente o mais correto é falar em aspectos psicobiológicos dos exercícios físicos. O termo psicobiológico diz respeito aos aspectos emocionais e orgânicos.

Foi a partir da década de 70 que se verificam os primeiros trabalhos científicos relacionando o exercício aeróbio e as suas repercussões sobre o humor e sobre a ansiedade.

 

Dependência Química, Alcoolismo e Exercícios 

Existem vários estudos sobre dependência e uso de drogas no Brasil e uma dessas pesquisas foi realizada pelo Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), entidade ligada à Escola Paulista de Medicina.

Segundo a pesquisa do Cebrid, a maconha é consumida por quase 7% da população e a cocaína é usada por cerca de 2% dos brasileiros. Contudo, ao lado dessas substâncias, existe o gravíssimo problema das drogas legalizadas, ou seja, do álcool, tabaco, ansiolíticos e anfetaminas ou inibidores do apetite.

O álcool, por exemplo, de acordo com o Cebrid, em pesquisa de 2004, é consumido por quase 70% dos brasileiros entre 12 e 65 anos de idade. Teoricamente, o uso e abuso dessas substâncias podem levar à dependência química.

Um outro levantamento sobre o uso de drogas psicotrópicas, realizado em 2001 pela Universidade Federal de São Paulo (1º. Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas) mostrou que, no caso do cigarro, de 25% a 35% dos adultos dependem da nicotina. A prevalência da dependência de álcool no Brasil é de 17,1% entre os homens e de 5,7% entre as mulheres, segundo esse estudo.

Quase 20% dos entrevistados já haviam experimentado alguma droga que não álcool ou tabaco e, entre elas, destacaram-se a maconha, com 6,9% de prevalência, 5,8% para os solventes e 2,3% para a cocaína. Nos últimos 10 anos, houve uma mudança no consumo da cocaína, diminuiu o número de usuários da cocaína injetável e aumentou a quantidade de usuários do crack, que é uma forma mais agressiva ao sistema nervoso central da cocaína. Além disso, o crack gera uma dependência grave, mais rapidamente e de difícil tratamento.

O tratamento médico da dependência química é complicado, normalmente multidisciplinar e individualizado caso-a-caso. Por se tratar de uma doença crônica, os resultados do tratamento são semelhantes aos de outras doenças crônicas, como por exemplo, a asma, hipertensão, diabetes e outras.

Além da conduta médica, outras devem ser adotadas, como a prática de exercícios físicos, por exemplo. Mesmo sem um embasamento cientificamente estruturado, o condicionamento físico do dependente químico e do alcoolista sempre objetivou a eliminação das toxinas, a busca de um melhor relacionamento social, o estímulo para o lazer através da caminhadas e jogos, o resgate da auto-estima e a melhoria das condições músculo-esqueléticas e cardiocirculatórias.

De modo geral, após o tratamento da dependência, as recaídas são frequentes. Nos primeiros seis meses 50% voltam ao vício e nos primeiro ano 90%. Mas, essas altas taxas de recaída da dependência não invalidam as iniciativas de tratamento e um dos fatores mais importantes para o sucesso do tratamento é a motivação e a conscientização da natureza patológica da dependência.

 

Os Transtornos de Humor e Exercício Físico

Tem sido preconizado que a prática sistemática de exercício físico está associada a menor ocorrência de sintomas depressivos ou de ansiedade em praticantes frequentes e, mesmo em pessoas consideradas depressivas, a adoção de programas de exercício físico tem se mostrado eficaz na redução dos sintomas (Pitts, 1967; Grosz, 1972).

Não basta, em medicina, acreditar que exercício físico é bom para Depressão, Ansiedade, Pânico, etc. Há necessidade de se determinar como e porque ocorre melhora dos transtornos de humor, estudar se esses exercícios devem ser aeróbicos ou de força, se a melhora é temporária e aguda ou é mais duradoura e depois de um programa de treinamento.

De certo e consensual até agora é que, de fato, a prática de exercícios reduz os sintomas nos transtornos de humor, mas não há consenso entre os pesquisadores de como isso ocorre.

Marco Túlio de Mello e cols fazem uma revisão sobre o assunto. Citam os experimentos de Morgan, que avaliou 15 homens adultos depois de correrem por 15 minutos. A ansiedade diminuía abaixo da linha basal imediatamente após a corrida e permanecia diminuída por 20 minutos. Seis homens com ansiedade neurótica e seis normais foram testados, antes e durante o teste completo, em esteira ergométrica até à exaustão, e os resultados demonstraram uma redução nos escores de ansiedade. As pesquisas fazem distinção entre a Ansiedade Traço (de personalidade) e a Ansiedade Circunstancial.

Os trabalhos de O Connor et al, demonstraram que as respostas de ansiedade ao exercício máximo, além de dependerem do nível de ansiedade que a pessoa possuía antes de começar o exercício, o nível da ansiedade só é diminuído depois de 10-15 minutos que o exercício terminou.

A eficácia do exercício físico associado a sintomas depressivos também tem sido relatada em relação a estados depressivos. Resultados têm demonstrado que o exercício aeróbio melhora a aptidão e diminui os sintomas depressivos, principalmente se são aplicados programas prolongados e regulares, como por exemplo, durante 12 semanas. Esta melhora pode ser resultado tanto de mecanismos fisiológicos, quanto comportamentais associados com exercício aeróbio.

Interessante é o estudo de Lopes (2001), também citado Marco Túlio de Mello e cols, que observou os efeitos de oito semanas de exercício físico aeróbio nos níveis de serotonina e depressão em mulheres entre 50 e 72 anos. Os resultados indicaram que a relação entre exercício físico e mobilização de gordura corporal proporciona uma melhora nos estados de humor.

Florindo Stella e cols (2002) têm um trabalho interessante sobre a utilização de exercícios físicos no tratamento da depressão em idosos. Eles citam Cooper (1982), para o qual o exercício físico, em particular o chamado aeróbio, realizado com intensidade moderada e longa duração (a partir de 30 minutos), propicia alívio do estresse ou tensão devido ao aumento da taxa de um conjunto de hormônios denominados endorfinas. Essas endorfinas são substâncias elaboradas pelo próprio Sistema Nervoso Central e agem aliviando o impacto estressor do ambiente. Por causa disso as endorfinas podem prevenir ou reduzir transtornos depressivos, conforme se comprova por vários estudos.

Ainda referido por StellaBlumenthal et al. (1999) têm um interessante trabalho com 156 idosos, todos portadores de desordem depressiva (comprovada por escores maiores ou iguais a 13 na escala de Hamilton), e com duração de 4 meses. Esses idosos foram divididos em três grupos:

Um grupo tratado com medicamento (GM), no caso o antidepressivo cloridrato de sertralina (inibidor seletivo de recaptura de serotonina); um grupo tratado com exercício (GE) na intensidade de 70 a 85% da frequência cardíaca de reserva e com duração de 45 minutos (10 minutos de aquecimento; 30 minutos pedalando ou andando forçadamente ou correndo levemente; 5 minutos de volta à calma), com 3 sessões semanais, e um terceiro grupo combinado (GC), tratado com medicamento associado ao exercício.

Depois de 16 semanas, os três grupos apresentaram resultados semelhantes, com redução dos níveis de depressão. Apesar dos pacientes com medicamento terem mostrado uma resposta inicial mais rápida, os autores concluíram que a atividade física regular deve ser considerada uma alternativa não-farmacológica para o tratamento do transtorno depressivo em idosos. Este mesmo GE foi acompanhado durante seis meses seguintes, concluindo-se, ao final, que foi o grupo com menores taxas de recaída, menores inclusive que as pessoas do GM. Essas pesquisas mostram que a atividade física regular deve ser considerada como uma alternativa não-farmacológica do tratamento do transtorno depressivo.

 

Esporte e Ansiedade

O esporte, em especial o esporte competitivo, é sinônimo de situações de avaliação comparativa (pelos outros e por si mesmo), de objetivos competitivos a alcançar, de desafios, de rivalidades, de expectativas, e de uma série de outros fatores associados, como por exemplo, de prestígio, de dinheiro, autoestima, admiração social, reconhecimento, etc.

Todas estas situações acabam gerando, nos atletas, estados afetivos e somáticos complexos e inerentes às particularidades de cada competição e de cada pessoalidade. Essas vivências esportivas, tendo em vista a pessoalidade de cada atleta e a carga afetiva que este coloca na competição, provocam reações emocionais atuais ou anticipatórios, tais como a ansiedade, estresse, medo, insegurança, depressão, angústia, etc .

A prática clínica e as pesquisas relacionadas ao esporte mostram que o estresse e a ansiedade costumam ter um relacionamento muito polêmico com o rendimento esportivo. Tentando resolver o problema terminológico entre as diversas expressões usadas para se referir às reações de alerta, vamos considerar aqui a ansiedade, o estresse, a ativação nervosa, a reação de alerta ou de nervosismo, o esforço emocional durante ou antes da competição como sinônimos. Embora a psicopatologia atribua definições mais específicas e diferenciadas entre alguns desses termos, aqui eles podem ser considerados sinônimos, na medida em que dizem respeito à estados fisiológicos e psicológicos desencadeados diante da necessidade do atleta enfrentar algum desafio (Coping).

Zaichkowsky (1993), por sua vez, parte do princípio que este estado global do organismo pode representar uma tripla ação: a ativação fisiológica, a resposta comportamental e a resposta emocional.

O importante é que essas palavras nos deem a noção de alerta, ansiedade e nervosismo associados à necessidade de superar obstáculos e conquistar objetivos. Não obstante, é importante também ter em mente que a principal diferença a ser considerada é em relação ao estado de Ansiedade Momentânea, que é aquela fisiológica e necessária para o indivíduo se adaptar a uma determinada circunstância e a Ansiedade Traço da Personalidade, que é a característica de determinadas pessoas, naturalmente ansiosas.

Embora não se tenham dúvidas de que, de fato, existe uma relação entre o rendimento esportivo e o estresse ou ansiedade, há controvérsias quanto ao tipo dessa relação. Alguns atletas consideram que as reações de estresse ou ansiedade atrapalham o desempenho, chegando a paralizá-los, enquanto outros acham que esses sentimentos os estimulam.

Em medicina entende-se o estresse ou ansiedade como uma ocorrência fisiológica global, tanto do ponto de vista físico quanto do ponto de vista emocional. As primeiras pesquisas médicas sobre esse estado estudaram toda uma constelação de alterações orgânicas produzidas no organismo diante de uma situação adversa.

Ansiedade é, medicamente falando, uma atitude fisiológica (normal) responsável pela adaptação do organismo às situações novas, onde se encaixam bem as situações do esporte competitivo. As mudanças acontecidas em nossa performance física quando um cachorro feroz tenta nos atacar, quando fugimos de um incêndio, quando passamos apuros no trânsito, quando tentam nos agredir e assim por diante, são as mesmas quando nos encontramos diante de um atleta adversário.

Diante de situações de competição a performance física acaba fazendo coisas extraordinárias, coisas que normalmente não seríamos capazes de fazer em situações não-competitivas. A maior parte desta performance melhorada deve-se à ansiedade, porém, embora a ansiedade favoreça a performance e a adaptação, ela o faz somente até certo ponto, até que nosso organismo atinja um máximo de eficiência.

A partir de um ponto excedente a ansiedade, ao invés de contribuir para a adaptação, concorrerá exatamente para o contrário, ou seja, para a falência da capacidade adaptativa. Nesse ponto crítico, onde a ansiedade foi tanta que já não favorece a adaptação, ocorre o esgotamento da capacidade adaptativa.

 

 00000247_524Vejamos ao lado, a ilustração de um gráfico ilustrativo, onde teríamos um aumento da adaptação proporcional ao aumento da ansiedade até um ponto máximo, com plena capacidade adaptativa. A partir desse ponto, embora a ansiedade continue aumentando, o desempenho ou adaptação cai vertiginosamente, assim sendo, ao invés da ansiedade melhorar a performance, acaba por comprometê-la.

 

Em nossos ancestrais o mecanismo do estresse foi destinado à sobrevivência diante dos perigos concretos e próprios da luta pela vida, como foi o caso das ameaças de animais ferozes, das guerras tribais, das intempéries climáticas, da busca pelo alimento, da luta pelo espaço geográfico, etc. No ser humano moderno, apesar dessas ameaças concretas não mais existirem em sua plenitude como existiram outrora, esse equipamento biológico continuou existindo. Apesar dos perigos primitivos e concretos não existirem mais com a mesma frequência, persistiu em nossa natureza a capacidade de reagirmos ansiosamente diante das situações novas, das ameaças.

Hoje em dia, emsmo fora do mundo esportivo, tememos a competitividade social, a segurança social, a competência profissional, a sobrevivência econômica, as perspectivas futuras e mais uma infinidade de ameaças abstratas e reais, enfim, tudo isso passou a ter o mesmo significado de ameaça e de perigo que as questões de pura sobrevivência à vida animal ameaçavam nossos ancestrais.

Se, em épocas primitivas o coração palpitava, a respiração ofegava e a pele transpirava diante de um animal feroz a nos atacar, se ficávamos estressados diante da invasão de uma tribo inimiga, hoje em dia nosso coração bate mais forte diante das exigências adaptativas do mundo moderno, onde se incluem os desafios do esporte competitivo, principalmente quando este ultrapassa a característica de lazer e passa a ser uma ocupação profissional.

Baseado nesse gráfico da em forma de U invertido que Hardy (1991) aplica a teoria das catástrofes na relação ansiedade-rendimento. O autor considera os efeitos da interação entre a ansiedade cognitiva e a ativação fisiológica no rendimento e o modelo da catástrofe preveria quando o nível de ansiedade cognitiva é muito alto, se observaria uma relação do tipo “catástrofe”, com deterioração brusca e catastrófica do rendimento.

Esse modelo, portanto, sugere que o aumento da ansiedade cognitiva poderia ter um efeito benéfico no rendimento em casos de baixos níveis de ativação fisiológica, mas teria efeitos bastante negativos em de níveis mais elevados.

Classicamente se considera a ansiedade excessiva um elemento negativo para o rendimento do atleta, e opiniões dos próprios atletas sobre esse aspecto são mais bastante evidentes, principalmente a ansiedade relacionada às expectativas de êxito por parte do próprio esportista ou sua sensação de satisfação da expectativa dos demais sobre sua vitória.

No esporte, é bastante didática a diferenciação da ansiedade em dois tipos, proposta por Martens (1990); a ansiedade cognitiva e a ansiedade somática, as quais não teriam a mesma influência no rendimento do atleta. Esse autor acha que o rendimento cairia quando a ansiedade cognitiva aumenta e, pelo contrário, melhoraria quando a ansiedade somática aumenta moderadamente, mas igualmente diminuindo quando esta última também é intensa.

Em termos de ansiedade somática, que surge no momento da competição e envolve a participação do organismo como um todo, colocando-o em estado de alerta e resultando no aumento dos níveis de adrenalina e cortisol, é preferível que o atleta tenha um nível levemente superior ao nível normal durante a competição.

Um elevado nível de ativação através da ansiedade somática é essencial para as atividades globais que requerem rapidez, resistência física e força, como por exemplo, nos jogos de futebol, basquete, lutas corporais, corridas, braço de ferro, natação, etc. Entretanto, um nível elevado de ansiedade somática seria negativo para habilidades complexas que exigem movimentos musculares finos, coordenação, concentração e equilíbrio.

A ansiedade cognitiva, por sua vez, que surge mais precocemente ao aproximar-se de uma competição e permanecer em alto nível, é determinada pela sensação emocional de apreensão e tenacidade psíquica. Este tipo de ansiedade, quando aumentada, produziria efeitos negativos nas atividades esportivas que requerem maior concentração, estratégia e agilidade psicomotora fina, como por exemplo, no xadrez, sinuca, golf, tiro ao alvo, dança, etc.

De um modo geral ambos tipos de ansiedade podem estar presentes em um mesmo atleta, predominando um tipop ou outro, dependendo do tipo de esporte e/ou do tipo de pessoalidade.

Por fim existe um terceiro fator se associa à possibilidade da ansiedade somática e cognitiva no comprometimento do rendimento do atleta: o estado afetivo e sua consequência mais direta e imediata que é a autoconfiança. A autoconfiança positiva parece estar ligada à melhora do rendimento, principalmente porque parece ser o oposto da ansiedade cognitiva.

O estado afetivo ou a afetividade (ou Humor, em psicopatologia) compreende o estado de ânimo ou humor, os sentimentos, as emoções e as paixões e reflete sempre a capacidade de experimentar sentimentos e emoções. A Afetividade é quem determina a atitude geral da pessoa diante de qualquer experiência vivencial, promove os impulsos motivadores e inibidores, percebe os fatos de maneira agradável ou sofrível, confere uma disposição indiferente ou entusiasmada e determina sentimentos que oscilam entre dois polos, a depressão e a euforia.

A afetividade modela o modo de relação do indivíduo com a vida e será através do estado de ânimo que a pessoa perceberá o mundo e a realidade desta ou daquela maneira. Direta ou indiretamente a afetividade exerce profunda influência sobre o pensamento e sobre toda a conduta do indivíduo.

Há estados afetivos momentâneos e constitucionais, os primeiros determinados por circunstâncias vivenciais e os segundos pela tonalidade afetiva ou humor básico da pessoa. As características introvertida e extrovertida da pessoalidade podem dar um dos muitos exemplos de disposições afetivas inatas. Quando se estuda a

 

Depressão

Estamos estudando uma alteração do estado de ânimo ou um estado afetivo depressivo.

A autoestima está seriamente comprometida em estados afetivos depressivos e, consequentemente o rendimento esportivo de atletas depressivos está seriamente prejudicado. Há, inclusive, uma forte tendência em associar a ansiedade aos estados depressivos.

De fato, saber com certeza se a Ansiedade pode ser uma das causas de Depressão ou se, ao contrário, pode surgir como consequência desta tem sido uma questão aberta à pesquisas e reflexões. Strian e Klicpera (1984) consideram um quadro unitário de Depressão e Ansiedade e Clancy e cols (1978) constatam que o humor depressivo antecede com frequência ao primeiro ataque de pânico. Lader (1975), ainda na década de 70, já observava que o Transtorno Ansioso aparece muito mais frequentemente em pessoas com caráter predominantemente depressivo.

 

Influências sobre o Rendimento do Atleta
Muitos estudos se interessam pelo desempenho de Coping, ou pela performance do atleta em relação às influências do meio, das condições de treinamento, da autoconfiança ou do sentimento de se sentir preparado, pressionado e/ou cobrado para a competição. A maioria dos estudos procura diferenciar os esportistas com uma prática intensa e de bom nível, daqueles cuja prática é mais esporádica e o nível de preparo menos primoroso, em outras palavras, diferencia os profissionais das outras pessoas.

Os autores reconhecem a grande influência sobre o desempenho do atleta, não apenas dos fatores diretamente relacionados ao esporte e à competição em si, mas dos fatores que estão além destes, ou seja, que dizem respeito às circunstâncias sócio-emocionais que envolvem o atleta e a competição. De modo geral tais fatores podem ser resumidos em mecanismos psicológicos ligados à mecanismos pessoais ou constitucionais (personalidade e vocações inatas), à situação da competição em si (conscientes e ativos) e circunstanciais (do entorno social), vistos abaixo.

1 – Fatores Pessoais e Constitucionais

Nenhum ser humano mostrará Traços que já não existam em outros indivíduos, como uma espécie de patrimônio do ser humano, ou seja, à todos indivíduos de uma mesma espécie são atribuídos os traços característicos dessa espécie. Entretanto, a combinação individual desses Traços em proporções variadas numa determinada pessoa caracterizará sua Personalidade ou sua maneira de ser.

O senso comum de um sistema sócio-cultural costuma elaborar uma relação muito extensa de adjetivos utilizados para a argüição dos indivíduos deste sistema: sincero, honesto, compreensivo, inteligente, cálido, amigável, ambiciosos, pontual, tolerante, irritável, responsável, calmo, artístico, científico, ordeiro, religiosos, falador, excitado, moderado, calado, corajosos, cauteloso, impulsivo, oportunista, radical, pessimista, e por aí afora. Podemos considerar Traço Predominante da pessoa em apreço a característica que melhor à define, como se, entre tantos traços tipicamente e caracteristicamente humanos, este traço específico predominasse sobre os demais.

Pois bem. É exatamente a predominância de alguns traços e a atenuação de outros que acaba por constituir a pessoalidade de cada um. Enfim, é como se o artista conseguisse extrair uma cor única e muito pessoal misturando uma série de cores básicas encontradas em todas as lojas de tintas. Como os traços básicos do ser humano são infinitamente mais numerosos que as cores básicas do exemplo, as combinações entre esses traços serão infinitas, fazendo disso a infinita diversidade de pessoalidades.

A combinação dos Traços resultará uma unidade funcional humana completamente distinta de todas os demais. É difícil pensar nestes Traços de outra forma, senão como uma certa inclinação inata submetida à influência agravante ou atenuante do meio, inclinação esta, responsável pela maneira como a pessoa se apresentará ao mundo ou ao convívio gregário.

Entre os fatores constitucionais, um forte traço de ansiedade na pessoalidade, entendido como uma predisposição de sensibilidade inata para perceber certos estímulos como ameaçadores, é um fator preditivo para estados exagerados de ansiedade, cognitiva e somática, estimulados pela competição.

Quando o traço de ansiedade é suficiente para fazer com que essa emoção seja somatizada, ou seja, se transforme em problemas orgânicos ou físicos (hipertensão, gastrites, diarreia crônica, vômitos, urticária, etc), talvez os esportes individuais ou não-competitivos fossem mais bem indicados.

Pessoas com baixo limiar de tolerância às frustrações também são muito problemáticas em relação aos esportes competitivos. Esse traço, de baixo limiar de tolerância às frustrações, aparece desde cedo no desenvolvimento da pessoa, caracterizando-as como crianças birrentas, “nervosas”, teatrais, exigentes sobre suas pretensões. Dependendo do grau de intolerâncias às frustrações, pessoalidades com este traço podem contra-indicar esportes competitivos ou tornam-se atletas pouco éticos.

Laurent (1999) considera os fatores constitucionais dirigidos segundo duas orientaçõe: pelo rendimento e/ou pelo controle, ou seja, dirigido pela carga afetiva que a tarefa da competição impõe ou pelo Ego do atleta.

 

Motivações do atleta distinguindo três objetivos
  1. O atleta pode perseguir seu objetivo e demonstrar assim sua capacidade. O fato de buscar um rendimento desejável (ou desejado) não está necessariamente ligado ao aumento da ansiedade cognitiva, mas está sim, ligado ao aumento da motivação.
  2. Pode, por medo, evitar o risco de mostrar sua eventual incompetência. A evitação do risco pode levar ao aumento da ansiedade cognitiva e diminuição da motivação e do rendimento.
  3. Pode, ainda, tentar dominar seu compromisso com a competição ou esporte através do domínio da disciplina e da técnica. O dominio da disciplina diminui a ansiedade cognitiva e aumenta a motivação.

 

Musculação e Hormônios

O treinamento de força (musculação) que objetiva o desenvolvimento de força e massa muscular parece influir na secreção de testosterona e hormônio do crescimento. Segundo Marcelo Porto, diversos estudos têm sido desenvolvidos com o intuito de esclarecer os mecanismos envolvidos na estimulação hormonal através do treinamento de musculação.

As pesquisas mostram que alguns fatores, tais como intensidade dos exercícios, volume da sessão de treinamento, quantidade de massa muscular envolvida nos exercícios, intervalos de recuperação entre as séries de exercícios, nível de treinamento e os períodos de descanso entre as sessões, são os principais determinantes das respostas hormonais.

Alguns pesquisadores têm demonstrado significativa participação dos hormônios anabólicos, como é o caso da testosterona e do hormônio do crescimento (GH), nas alterações metabólicas proporcionadas pelos exercícios de alta intensidade e curta duração, como os exercícios de musculação.

O nível de testosterona aumenta imediatamente após o término do exercício de musculação e aumenta proporcionalmente à intensidade dos exercícios, ou seja, do número de repetições máximas, quantidades de séries, quantidade da massa muscular recrutada e volume total de trabalho.

Outro fator de influência no aumento da testosterona é a quantidade de massa muscular envolvida no treinamento, de forma que os exercícios que envolvem grandes massas musculares elevam mais significativamente os níveis da testosterona, em comparação com exercícios que envolvem pequenos grupos musculares.

Tais estudos, citado por Marcelo Porto, enfatizam que a quantidade de trabalho por exercício é um fator significante na determinação das elevações dos níveis de testosterona, porém, alertam que o volume excessivo de treinamento pode exercer efeito negativo sobre a secreção desse hormônio. Isso ocorre quando há um desequilíbrio entre o treinamento e o período de recuperação, desencadeando uma situação conhecida como overtraining.

Dessa forma, para que haja aumento nos níveis da testosterona, o mais indicado seriam os treinamentos intensos, com curtos períodos de trabalho e envolvendo grandes massas musculares. De um modo geral esse também é o comportamento dos níveis de hormônio do crescimento em relação ao exercício físico, exceto na situação de exercícios muito pesados, os quais parece não diminuir o nível do hormônio do crescimento, como ocorre com a testosterona.

Ballone GJ – Exercícios fazem bem… in. PsiqWeb, internet – disponível na internet em: http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2008.